Vai parecer difícil pra você acreditar, talvez, mas tem gente que insiste em optar pela alegria ao invés do remorso. Ao mesmo tempo em que algumas garotas e garotos enxergam somente os problemas e esquecem de toda a beleza ao seu redor e de todas as possibilidades ao seu alcance, outras garotas e outros garotos lhes têm as chances muito distantes e boa parte da beleza negada. E ainda assim sorriem.
É difícil ter muita sede e fome de tudo, inclusive de carinho, que faz um puta dum buraco no peito, e não saber nem o que é que está faltando porque nunca teve, e não saber nem que a angústia de todo dia é por conta desse buraco, que de tanto tempo buraco vazio, já virou parte da pessoa. E aí qualquer coisa serve pra tentar encher. E ódio é uma coisa muito fácil de conseguir por aí, se não tomar cuidado. Ódio e vontade de culpar alguém, porque no fundo ninguém pode fugir da culpa. Eles têm e eu não, eles são os culpados! É o Sem-Pernas, que já de tão machucado desacreditou que alguém ia mesmo gostar dele. Que nos seus sonhos só via o mesmo ódio que via acordado.
Mas têm alguns, e são poucos, que apanham e levantam e apanham de novo, mas têm alguma coisa que os faz acreditar que existe algo que não dor e raiva no mundo, e eles sabem por que existe em algum lugar dentro deles. E são poucos mesmo, por que não é nem um pouco fácil apanhar tanto, ouvir tanto que não se é nada, e ainda assim acreditar que, além de ser alguma coisa, ainda pode ousar ser uma coisa boa. Não sei se eu conseguiria. Que nem Pedro Bala, que fez muita coisa errada mesmo sem saber que era errada e viu muita coisa errada, e não achava aquilo normal, e tinha fome muitas vontades insaciadas, mas andava pelas ruas e olhava o cais de cima da ladeira e não podia conter o sorriso e a felicidade de ser um menino livre na cidade da Bahia. Depois ele descobriu até que podia ter vontade de mudar o mundo, que podia, além de sorrir, provocar um ou dois sorrisos.
Eu sei que os Capitães da Areia são personagens (muito bem) criados por Jorge Amado. Mas tenho a certeza absoluta que existem Pedros Bala, e muitos Sem-Pernas em Salvador,
Tem tanta dor aí fora que, por mais que eu tente, não consigo de jeito nenhum imaginar como é sentir. Como é ter nove anos e assistir a morte dos seus pais, depois ser treinado pra lutar contra o seu povo. E como ainda sobrevive. E, se sobrevivem, se são tantos, é quase impossível acreditar que em nenhum exista uma luz. Ainda que fraca, ainda que sozinha, mas ainda resta amor.
Que seja em um só coração, mas em algum lugar se esconde esperança.

